...

Bridgerton: quando a adaptação liberta a história original e cria um novo fenômeno

Com a estreia da quarta temporada, Julia Quinn prova que apoiar a criatividade de Shonda Rhimes foi a melhor decisão, e o mercado todo segue essa energia, com diversas marcas explorando o fenômeno da Netflix.

Há sempre o questionamento sobre o que é melhor o livro ou a adaptação para as telas. Neste caso, eu fico com os dois, com poucas ressalvas à exploração dos “núcleos paralelos” e muitos excessos sobre a personalidade (ou atitude) dos personagens masculinos, entendendo que a imagem em movimento precisa “chocar” um pouco para chamar a atenção.

A série que virou mais que entretenimento

Quando Julia Quinn criou seus romances de época, provavelmente não imaginava que a adaptação de Shonda Rhimes transformaria sua obra em um fenômeno que atravessa telas, prateleiras, vitrines e até eventos ao vivo. Mas é exatamente isso que aconteceu com a quarta temporada.

O lançamento virou um daqueles raros momentos em que cultura pop, consumo e literatura caminham juntos e, diferentemente do que muitos puristas pensam, isso é excelente para o hábito de leitura. O Brasil precisa disso: de pontes entre entretenimento e literatura, de portas abertas para novos leitores, mesmo que eles cheguem pela série primeiro.

Quando a Editora Arqueiro trouxe Julia Quinn para o Brasil, o gênero já era um grande sucesso lá fora. A editora chamou o gênero de “Romance de Época” e não parou mais de lançar títulos e autoras a cada semestre. Júlia logo foi convidada para as bienais e se apaixonou pelo calor dos leitores brasileiros. E curiosidade: pelo milkshake de Ovomaltine, que só encontra aqui.

Brigerton, fenômeno de marketing e público
Recorte sobr foto-divulgação/Netflix

Julia Quinn e a liberdade criativa de Shonda Rhimes

Aqui está o ponto mais interessante deste fenômeno de adaptação de sucesso: Julia Quinn não apenas permite as mudanças, ela as celebra.

Enquanto alguns autores veem adaptações como “violência” contra a obra original (como nosso autor mais adaptado para o cinema e novelas, Jorge Amado chegou a declarar), Quinn mantém uma postura completamente diferente. Para ela, a série não precisa ser uma cópia exata do texto. Precisa manter a emoção, o romance e o final feliz. E isso, segundo ela, está garantido.

Essa liberdade criativa que Quinn dá a Shonda Rhimes é revolucionária. Convenhamos que ela não pega leve sobre estereótipos de protagonistas típicos e da trama original: um duque negro em plena Regência britânica, uma protagonista totalmente fora dos padrões estéticos anoréxicos e a dose dupla nas heroínas de origem indiana (segunda temporada) e asiática (quarta temporada), sem falar no príncipe encantado em tons de “Cinderela” que vai muito (muito) além dos padrões de libertinagem da época “que fazem os melhores maridos”. Quinn endossa, assim, que a série:

  • Diversifique o elenco de forma natural e significativa
  • Explore temas contemporâneos sem perder a essência romântica
  • Crie novos núcleos narrativos que enriquecem o universo
  • Evolua com o público em vez de ficar presa ao texto de 20+ anos atrás

O resultado? Uma série que cresce sem perder a base de fãs, há espaço para evolução, novas leituras e novos públicos.

Quando as marcas descobrem o ouro cultural

A quarta temporada não ficou restrita à Netflix. Ela se espalhou de forma estratégica por diferentes segmentos, com ações que conversam diretamente com o clima romântico e sofisticado da série.

Comfort: fragrâncias e mistério

Lançou a linha Segredos Bridgerton, com campanha protagonizada por Hugh Sachs e uma história de mistério envolvendo fragrâncias da corte. A ideia foi transformar o produto em parte do ritual do fã.

Melitta: café como experiência

Apresentou o café gourmet Torra da Rainha, em edição limitada, com embalagens colecionáveis e cartas inspiradas na série. Não é só comprar, é participar de um universo.

Coty/Risqué: autocuidado como protagonismo

Uniu esmaltes, sérum nutritivo e fragrâncias em edições limitadas que conversam entre si, reforçando a ideia de cuidado como forma de identidade feminina e poder pessoal.

Linha Risque Bridgerton
Foto-Divulgação

Antarctica: sofisticação visual

Apostou em latas tematizadas, presença em eventos como o Baile da Vogue e uma carta de coquetéis exclusiva, tudo muito alinhado ao imaginário refinado de Bridgerton.

Por que essa estratégia funciona tão bem?

As marcas entenderam algo fundamental: Bridgerton não é apenas uma série, é um estilo de vida. Os fãs não querem só assistir — querem viver a experiência, participar do universo, levar um pouco daquela sofisticação para o dia a dia.

Quando Melitta lança um café com embalagem colecionável, não está vendendo apenas café. Está vendendo a possibilidade de tomar café como uma personagem de Bridgerton.

Quando Comfort cria fragrâncias com histórias de mistério, não está vendendo perfume. Está vendendo narrativa.

Essa é a magia do marketing cultural bem feito: transformar produto em experiência.

Veja outras marcas que aproveitaram o hype das séries:

Stranger Things (Netflix)

  • Coca-Cola – relançou a New Coke de 1985 após a série usar a bebida.
  • Levi’s – coleção inspirada nos anos 80 usada pelos próprios personagens.
  • Casas Bahia / Samsung – vitrines temáticas e produtos retrô impulsionados pela estética da série.
  • Burger King – “Upside Down Whopper”, sanduíche virado ao contrário.

Game of Thrones (HBO)

  • Johnnie Walker – edição limitada White Walker, recorde de vendas.
  • Adidas – tênis inspirados nas casas de Westeros.
  • Oreos – embalagem e biscoitos com brasões da série.
  • Urban Decay – coleção completa de maquiagem GOT.

The Witcher (Netflix)

  • CD Projekt Red – aumento astronômico nas vendas dos jogos após a série.
  • Panini – relançamento de HQs e livros.
  • Spotify – “Toss a Coin to Your Witcher” bateu recordes de streaming.

Euphoria (HBO)

  • MAC Cosmetics / NYX – explosão das vendas de glitter, delineadores coloridos e maquiagem neon.
  • Marc Jacobs Beauty – estética glossy e molhada popularizada pela série.
  • Depop – boom nas vendas de looks “Euphoria core”.

Emily in Paris (Netflix)

  • Lancôme – perfumes e makes edição especial.
  • Aldo – coleção de bolsas e sapatos inspirados na Emily.
  • Swarovski – joias usadas em episódios dispararam buscas.
  • Veja – tênis franceses adotados pela personagem impulsionaram buscas no Brasil.

The Last of Us (HBO)

  • Sony PlayStation – vendas do jogo cresceram mais de 300% após a estreia.
  • Converse – os tênis da Ellie viralizaram no TikTok.
  • Herschel – mochilas estilo sobrevivência ganharam hype.

A literatura ganha leitores (e isso é o que importa)

Aqui está o lado que os puristas não conseguem negar: adaptações bem-feitas promovem leitura.

Quantas pessoas descobriram Julia Quinn através da série? Quantas compraram os livros depois de assistir aos episódios? Quantas agora leem romance de época porque Bridgerton as apresentou ao gênero?

Ler é terapia, é viagem, é o puro suco da democracia intelectual. E não precisa ser só sério, chato ou midiático. Literatura tem espaço para todos os gostos e gêneros.

A postura de Julia Quinn – apoiando a irreverência de Shonda Rhimes, celebrando a diversidade, permitindo que a história evolua – é exatamente o que o mercado editorial brasileiro precisa. Não de purismo, mas de abertura para novos públicos.

Julia Quinn na Bienal do Livro Bahia 2026

Aproveitando o momento aquecido da franquia, veio a confirmação que animou leitores brasileiros: Julia Quinn estará na Bienal do Livro Bahia 2026, entre 15 e 21 de abril, no Centro de Convenções de Salvador.

A volta da autora ao Brasil conecta diretamente o sucesso da série com suas origens literárias. É o tipo de anúncio que:

  • Amplia o alcance do evento
  • Reforça como Bridgerton funciona como ponte entre telas, prateleiras e experiências ao vivo
  • Oferece aos fãs a chance de conhecer a mente criativa por trás da história

Conclusão: um fenômeno que só cresce

A quarta temporada de Bridgerton provou que não existe conflito entre adaptação e obra original quando há respeito e criatividade envolvidos.

Julia Quinn entendeu algo que muitos autores levam anos para perceber: deixar sua obra respirar, evoluir e alcançar novos públicos é um ato de amor, não de traição.

E enquanto as marcas surfam a onda com campanhas criativas, enquanto novos leitores descobrem os livros, enquanto a série continua quebrando recordes, Bridgerton segue sendo o que sempre foi: uma história sobre amor, identidade e escolha.

Só que agora, muito mais colorida, inclusiva e livre.

E, convenhamos, é difícil não querer fazer parte disso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima