“Auto da Compadecida” é uma peça de teatro em forma de “auto” (um gênero medieval) que se passa no sertão nordestino. A trama acompanha as aventuras de João Grilo, um sertanejo pobre, mentiroso e extremamente astuto, e seu inseparável amigo Chicó, um covarde contador de histórias. Para sobreviver à fome e à opressão dos poderosos da cidade de Taperoá, João Grilo arma uma série de planos engenhosos, enganando o padre, o bispo, o padeiro e sua esposa infiel. A história sofre uma reviravolta dramática quando o temido cangaceiro Severino e seu bando invadem a cidade, matando a todos. A segunda metade da peça se desenrola no céu, onde os personagens enfrentam o Juízo Final, sendo julgados por Manuel (Jesus Cristo) e acusados pelo Demônio. A salvação de suas almas depende da intercessão da “Compadecida” (Nossa Senhora), que se torna a grande advogada da humanidade. A obra é uma comédia satírica que critica as instituições sociais e religiosas, ao mesmo tempo que celebra a fé popular, a astúcia do oprimido e, acima de tudo, a misericórdia divina.

Temas Centrais
- Crítica social e sátira: a peça é uma sátira mordaz das estruturas de poder: a Igreja (representada pelo padre e o bispo, obcecados por dinheiro), a burguesia (o padeiro e sua esposa, mesquinhos e adúlteros) e o poder local (o Major Antônio Morais).
- Fé popular vs. Religião institucional: Suassuna contrasta a fé simples e genuína do povo, encarnada na devoção à Compadecida, com a hipocrisia e a corrupção do clero oficial.
- A astúcia do oprimido (Malandragem): João Grilo é o arquétipo do “amarelo” que, sem força física ou poder, usa a inteligência e a esperteza como única arma para sobreviver e subverter a ordem imposta pelos poderosos.
- Misericórdia e Compaixão: este é o tema fundamental da obra. A Compadecida argumenta que os seres humanos são falhos por natureza e merecem compaixão, não um julgamento implacável. A misericórdia triunfa sobre a justiça estrita.
- A morte como grande niveladora: a chegada dos cangaceiros e a morte de todos os personagens, ricos e pobres, poderosos e fracos, mostra que, diante da morte, todas as hierarquias sociais são irrelevantes.
- Cultura Nordestina: a peça é profundamente enraizada na cultura do sertão, incorporando elementos da literatura de cordel, do cangaço e da religiosidade popular.
Resumo dos personagens principais de “Auto da Compadecida”
- João Grilo: o protagonista. Um “pobre, amarelo e mentiroso”, mas dotado de uma inteligência e astúcia extraordinárias. É o motor da história, o anti-herói que luta pela sobrevivência.
- Chicó: o melhor amigo de João Grilo. Covarde, romântico e um mentiroso compulsivo, famoso por suas histórias fantásticas e pela frase “Não sei, só sei que foi assim”. Serve como contraponto cômico a João Grilo.
- A Compadecida (Nossa Senhora): a figura central do julgamento. É a personificação da misericórdia e da compaixão. Atua como advogada de defesa de todos os pecadores, apelando ao seu filho pela salvação da humanidade.
- Manuel (Jesus Cristo): o Juiz no tribunal celestial. É apresentado de forma humanizada, como um homem negro, justo, mas severo, que é constantemente enternecido pelos apelos de sua mãe.
- O Padeiro e a Mulher do Padeiro: representam a burguesia local. São avarentos, hipócritas e vivem uma farsa matrimonial, já que a mulher trai o marido constantemente.
- Padre João e o Bispo: representam a corrupção da Igreja. Estão mais preocupados com dinheiro e status do que com a salvação das almas, chegando a competir por quem cobraria mais por uma bênção.
- Major Antônio Morais: o “coronel” da cidade, representa o poder autoritário e a força bruta, que se curva facilmente diante de uma ameaça maior (os cangaceiros).
- Severino de Aracaju: o chefe do bando de cangaceiros. É um homem violento, mas que também é produto da injustiça social que sofreu na infância.
Resumo por partes de “Auto da Compadecida”
Ato 1: Os planos em Taperoá
A peça começa com João Grilo e Chicó tentando arranjar dinheiro. O primeiro grande plano de João Grilo gira em torno do cachorro doente da mulher do padeiro. Sabendo que o Padre João se recusa a benzer animais, João Grilo mente, dizendo que o cachorro pertence ao temido Major Antônio Morais. O padre, por medo e interesse, concorda. A situação escala quando o cachorro morre e a mulher exige que ele tenha um enterro em latim. João Grilo novamente engana o padre, inventando um testamento falso em que o cachorro deixaria dinheiro para a paróquia. O Bispo chega, descobre a farsa, mas também é subornado pela mesma promessa de dinheiro, revelando a hipocrisia de ambos.
Ato 2: A chegada dos cangaceiros e a morte
A comédia de erros é brutalmente interrompida com a chegada do cangaceiro Severino e seu bando. Eles invadem a cidade e, um a um, matam os personagens principais: o Bispo, o Padre, o Padeiro e sua Mulher. João Grilo, em sua última tentativa de usar a astúcia para sobreviver, engana Severino com uma “gaita que ressuscita os mortos”. O plano falha quando o próprio Severino pede para ser morto para testar a gaita, e seu capanga, desconfiado, atira e mata João Grilo antes que ele possa “ressuscitá-lo”.
Ato 3: O julgamento no céu
A cena se move para o plano espiritual. Todos os personagens mortos se encontram no Juízo Final, diante de Manuel (Jesus) e do Demônio (o “Encabrunhado”). O Demônio atua como promotor, acusando cada um de seus pecados: a avareza do padre e do bispo, a luxúria e o adultério da mulher do padeiro, a mesquinhez do padeiro. Todos parecem condenados ao inferno. João Grilo, mesmo morto, não perde sua lábia e tenta se defender, mas seus argumentos não convencem Manuel.
Ato 4: A intercessão da Compadecida
Quando toda a esperança parece perdida, João Grilo, em um ato de fé popular, grita por Nossa Senhora, a “Compadecida”. Ela aparece e assume o papel de advogada de defesa. Com ternura, humor e uma lógica maternal, ela defende cada um dos pecadores, mostrando a Manuel que suas falhas eram humanas e que todos tinham alguma qualidade, por menor que fosse. Ela argumenta que julgar com rigor excessivo seria uma falta de misericórdia.
Ato 5: O veredito e a segunda chance
Convencido pelos apelos de sua mãe, Manuel concede o perdão. A maioria dos personagens é enviada ao Purgatório para pagar por seus pecados, escapando do inferno. A João Grilo, por ter sido um pobre coitado que lutou pela vida e por ter tido a fé de chamar pela Compadecida, é dada uma segunda chance: ele ressuscita. A peça termina com Chicó encontrando João Grilo vivo. Juntos, eles decidem levar uma vida mais honesta, mas continuam pobres e sertanejos, enfrentando a dureza da vida com uma nova perspectiva.
Recomendação de quem deveria ler este livro
“Auto da Compadecida” é uma leitura essencial e deliciosa para todos os brasileiros e para qualquer pessoa interessada em comédia, sátira social e cultura popular. É altamente recomendado para estudantes, por sua importância no cânone literário, e para o público em geral, por seu humor inteligente, seus personagens cativantes e sua mensagem universal de esperança e compaixão.
Quando foi publicado pela primeira vez? e por quem?
A peça foi escrita em 1955 e sua primeira publicação em livro ocorreu em 1957, pela editora Agir. Sua primeira encenação foi em 1956, no Recife.
Curiosidades sobre “Auto da Compadecida”
- Gênero Medieval: o “auto” é um tipo de peça teatral popular na Idade Média, geralmente com temas religiosos e personagens alegóricos (como o Demônio, a Virtude, etc.). Suassuna resgata esse formato e o adapta à realidade nordestina.
- Influência do Cordel: a obra é fortemente influenciada pela literatura de cordel, tanto na linguagem quanto na construção dos personagens e no enredo episódico.
- Movimento Armorial: Ariano Suassuna foi o criador do Movimento Armorial, que buscava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes da cultura popular do Nordeste. “Auto da Compadecida” é um dos maiores exemplos dessa proposta.
- Sucesso da Adaptação: a minissérie e posterior filme “O Auto da Compadecida” (2000), dirigido por Guel Arraes, tornou-se um fenômeno cultural no Brasil, popularizando ainda mais a obra e imortalizando as atuações de Matheus Nachtergaele (João Grilo) e Selton Mello (Chicó).
Conclusão de “Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna
A conclusão da obra é uma celebração da misericórdia sobre a justiça estrita. Suassuna não nega os pecados dos personagens, mas argumenta, através da Compadecida, que a condição humana é inerentemente falha e merece compaixão. O final reforça a ideia de que a fé simples e popular tem mais valor do que os rituais vazios de uma igreja corrupta. É uma mensagem de esperança, mostrando que mesmo o mais mentiroso e “amarelo” dos homens pode encontrar a salvação se tiver um bom coração e fé.
Perguntas Frequentes sobre “Auto da Compadecida”
O que significa o título “Auto da Compadecida”? “
Auto” refere-se ao gênero teatral de origem medieval, de caráter simples e geralmente com temas religiosos ou moralizantes. “Compadecida” é um título popular para Nossa Senhora, Aquele que “padece com”, que tem compaixão. Portanto, o título significa “A Peça Teatral da Senhora da Misericórdia”.
João Grilo é um herói ou um anti-herói?
Ele é um clássico anti-herói. Suas ações são moralmente questionáveis (ele mente, engana, rouba), mas seus motivos são compreensíveis (sobreviver à fome e à opressão). O público torce por ele porque ele usa sua inteligência para desafiar os poderosos e hipócritas.
A peça é uma crítica à religião?
Não exatamente. É uma crítica feroz à instituição religiosa e seus representantes corruptos (o padre e o bispo), que se preocupam mais com dinheiro do que com a fé. Ao mesmo tempo, a peça exalta a fé popular, simples e direta, representada pela devoção na Compadecida.
Por que Jesus é retratado como um homem negro?
A escolha de Suassuna de retratar Manuel (Jesus) como um homem negro é uma poderosa declaração social e teológica. Ela desafia a iconografia eurocêntrica da religião e aproxima a figura divina do povo brasileiro, em sua maioria miscigenado, sugerindo que Deus está do lado dos oprimidos.
Qual a origem da famosa frase de Chicó, “Não sei, só sei que foi assim”?
Essa frase é a marca registrada de Chicó e encapsula sua personalidade. Ele a usa para concluir suas histórias mirabolantes e claramente falsas, isentando-se da responsabilidade pela veracidade dos fatos e apelando para a suspensão da descrença do ouvinte. Tornou-se um dos bordões mais famosos da cultura brasileira.


