As características principais do estilo de Jo Nesbø, príncipe no “Scandinavian Noir” – comparação com outros autores de suspense

Vou analisar a abordagem única de Jo Nesbø em comparação com outros mestres do suspense, destacando seus estilos narrativos e técnicas de construção de tensão. Minha intenção é apresentá-lo para quem não conhece ou enriquecer sua compreensão do gênero.

Jo Nesbø é um dos pilares do Scandinavian Noir, mas sua abordagem tem características muito distintas. Vamos detalhar seu estilo e depois compará-lo com outros grandes nomes do suspense.

As características principais do estilo de Jo Nesbø

Para entender a comparação, primeiro precisamos definir o “DNA” da escrita de Nesbø, especialmente na série Harry Hole:

  1. O protagonista falho e atormentado: Harry Hole não é apenas um detetive; ele é um anti-herói complexo, um alcoólatra funcional (às vezes nem isso), teimoso, insubordinado e com uma capacidade infinita para a autodestruição. Sua genialidade para resolver crimes é diretamente proporcional à sua inabilidade para gerenciar a própria vida.
  2. Tramas extremamente complexas e com múltiplas vamadas: ss investigações de Nesbø são labirintos. Ele apresenta múltiplos suspeitos, pistas falsas (red herrings) e reviravoltas chocantes, muitas vezes conectando os crimes a eventos históricos ou traumas passados.
  3. Violência gráfica e realismo cru: Nesbø não tem medo de descrever a brutalidade de forma explícita. Seus crimes são viscerais, e a violência tem consequências físicas e psicológicas duradouras para os personagens.
  4. A atmosfera como personagem: Oslo, especialmente durante o inverno, não é apenas um cenário. A cidade é fria, escura e opressiva, refletindo o estado mental dos personagens e o tom sombrio da narrativa.
  5. O duelo psicológico: mais do que uma simples caçada, os casos de Harry Hole são duelos intelectuais e psicológicos entre ele e o assassino. O criminoso muitas vezes conhece Harry e o provoca pessoalmente.
Características de Jo Nesbo e comparação com outros autores de suspense

Comparando Jo Nesbø com outros autores de suspense

Agora, vamos colocar Nesbø lado a lado com outros gigantes do gênero.

1. Jo Nesbø vs. Stieg Larsson (Série Millennium)

  • Semelhanças: ambos são mestres do Scandinavian Noir. Compartilham o tom sombrio, as tramas complexas e uma forte crítica social implícita em suas obras, abordando a corrupção e a hipocrisia sob a fachada de uma sociedade nórdica perfeita.
  • Diferenças:
    • Foco da crítica: a crítica de Larsson é mais política e sistêmica, focada na misoginia, na corrupção corporativa e nos segredos do Estado. Nesbø é mais existencial e psicológico, focando na escuridão da alma humana individual.
    • Protagonistas: a dupla de Larsson, Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, é muito diferente. Lisbeth é uma justiceira hacker que opera fora do sistema. Harry Hole, de Nesbø, é um homem do sistema (um policial), mesmo que lute constantemente contra ele.
    • Natureza do mal: Em Larsson, o mal é frequentemente institucional. Em Nesbø, o mal é mais íntimo, nascido de traumas pessoais e psicopatias individuais.

2. Jo Nesbø vs. Ken Follett (Ex: “O Buraco da Agulha”)

  • Semelhanças: Ambos são mestres em criar suspense e tensão de forma meticulosa. Seus protagonistas muitas vezes são “caçadores” obcecados por suas presas.
  • Diferenças:
    • Gênero: Follett é um mestre do thriller de espionagem e histórico. Suas tramas são grandiosas, muitas vezes com o destino do mundo em jogo. Nesbø se concentra no thriller policial e no serial killer procedural, com um escopo mais contido e urbano.
    • Tom: A escrita de Follett, embora tensa, tem um tom mais clássico e aventuresco. A de Nesbø é consistentemente mais sombria, cínica e melancólica.
    • Protagonistas: Os heróis de Follett são frequentemente pessoas comuns ou profissionais competentes que se superam (como Lucy em “O Buraco da Agulha”). O herói de Nesbø já é um especialista, mas está sempre à beira do colapso.

3. Jo Nesbø vs. Agatha Christie

  • Semelhanças: ambos criam quebra-cabeças complexos e são mestres em enganar o leitor com pistas falsas.
  • Diferenças:
    • Abordagem do crime: Christie representa o “whodunit” clássico, um jogo intelectual. O foco está no “quem matou?”. A violência é quase sempre discreta e fora de cena. Nesbø foca no “porquê” e no “como”. A violência é central, gráfica e psicologicamente devastadora.
    • Detetive: os detetives de Christie (Poirot, Marple) são figuras excêntricas e geniais, cuja principal arma é a massa cinzenta. Eles estão emocionalmente distantes do crime. Harry Hole, de Nesbø, está sempre pessoal e visceralmente envolvido; o crime o consome.
    • Atmosfera: Christie cria uma atmosfera de mistério “aconchegante” (cozy mystery), geralmente em uma mansão ou um trem. Nesbø nos joga nas ruas frias e nos becos escuros de Oslo.

4. Jo Nesbø vs. Gillian Flynn (Ex: “Garota Exemplar”)

  • Semelhanças: Ambos exploram a psicologia sombria de seus personagens e a desintegração de relacionamentos. Não têm medo de criar personagens moralmente ambíguos e até mesmo repulsivos.
  • Diferenças:
    • Gênero: Flynn é a rainha do thriller psicológico e do domestic noir. A ameaça vem de dentro do casamento, da família. Nesbø foca no thriller policial, onde a ameaça é externa (um serial killer) e precisa ser caçada por um agente da lei.
    • Perspectiva narrativa: Flynn é famosa por usar narradores não confiáveis, onde o próprio protagonista está mentindo para o leitor. Em Nesbø, a perspectiva é geralmente a de Harry Hole, que, apesar de seus defeitos, é um narrador confiável em sua busca pela verdade.

Curiosidade: Macbeth

Nesbø transporta a história da Escócia medieval para uma cidade industrial, chuvosa e corrupta da década de 1970. Nesse cenário, Macbeth não é um general, mas sim o chefe da unidade de elite da polícia. Ele é um homem com um passado sombrio, mas extremamente competente e, inicialmente, com um forte senso de justiça. A trama de poder, ambição e traição se desenrola no submundo do crime, do tráfico de drogas e da corrupção policial.

Sucesso da obra

O livro foi um grande sucesso de crítica e público. Os especialistas elogiaram a genialidade de Nesbø em traduzir os temas universais de Shakespeare (ambição, culpa, poder) para uma linguagem e um gênero completamente diferentes, sem perder a essência da tragédia original.

Curiosidades da adaptação

  • As Três Bruxas: em vez de feiticeiras em um pântano, as profecias que incitam a ambição de Macbeth vêm de dois traficantes que controlam a produção de uma nova droga poderosa.
  • Lady Macbeth: aqui, ela é a dona de um cassino de luxo, uma mulher igualmente ambiciosa e manipuladora, que empurra Macbeth para tomar o poder e se tornar o novo chefe de polícia da cidade.
  • Atmosfera Noir: o livro é um thriller noir clássico. A ambientação é opressiva, sombria e violenta, bem ao estilo característico de Jo Nesbø, lembrando muito suas obras mais famosas, como a série Harry Hole.

Projeto Hogarth Shakespeare

Do ponto de vista do mercado editorial, o projeto Hogarth Shakespeare como um todo foi uma aposta muito bem-sucedida, mostrando que há um público ávido por releituras inteligentes de clássicos. A versão de Nesbø se destacou por ser, ao mesmo tempo, uma homenagem fiel e um thriller policial de altíssima qualidade que funciona de forma independente. Poucos estão disponíveis em português, dei as dicas para o kindle em inglês.

Além do “Macbeth” de Jo Nesbø, outras obras brilhantes foram publicadas. Aqui está a lista para você explorar:

  • A Menina de Vinagre (Vinegar Girl)
    • Autora: Anne Tyler
    • Baseado em: A Megera Domada
    • Nesta versão, a trama se passa em Baltimore e a “megera” é Kate, uma mulher inteligente e sem papas na língua que cuida de seu pai, um cientista excêntrico. Ele tenta arranjar um casamento entre ela e seu jovem assistente para evitar que ele seja deportado. É uma comédia romântica moderna e charmosa.
  • O Vazio do Tempo (The Gap of Time)
    • Autora: Jeanette Winterson
    • Baseado em: O Conto de Inverno
    • Winterson transforma a Sicília e a Boêmia da peça em Londres e em uma cidade fictícia no sul dos EUA chamada “Nova Boêmia”. A história de ciúmes, abandono e redenção é contada com uma linguagem poética e um toque de realismo mágico, bem característico da autora.
  • Meu Nome é Shylock (Shylock Is My Name)
    • Autor: Howard Jacobson
    • Baseado em: O Mercador de Veneza
    • Jacobson, conhecido por seu humor e profundidade em temas judaicos, cria um diálogo fascinante entre um personagem moderno e o próprio Shylock de Shakespeare, que aparece na Inglaterra contemporânea. Eles discutem identidade, paternidade e o legado de antissemitismo.
  • Semente de Bruxa (Hag-Seed)
    • Autora: Margaret Atwood
    • Baseado em: A Tempestade
    • A genial Margaret Atwood (de “O Conto da Aia”) narra a história de Felix, um diretor de teatro que é traído e demitido de seu cargo. Anos depois, ele tem a chance de se vingar ao encenar “A Tempestade” em uma prisão, usando os detentos como atores. É uma obra metalinguística e muito inteligente.
  • Menino Novo (New Boy)
    • Autora: Tracy Chevalier
    • Baseado em: Otelo
    • A trama é transportada para um pátio de escola em Washington, D.C., nos anos 1970. Othello é Osei, o único aluno negro da escola, e a tragédia do ciúme, preconceito e manipulação se desenrola em um único dia. Uma abordagem poderosa e concisa da peça.
  • Dunbar
    • Autor: Edward St. Aubyn
    • Baseado em: Rei Lear
    • Henry Dunbar é um magnata da mídia, idoso e poderoso, que é traído por duas de suas filhas e internado em um sanatório. Ele foge em meio a uma tempestade com outro paciente e reflete sobre sua vida e seus erros. É uma análise brutal sobre família, poder e loucura no mundo corporativo.

Conclusão

Jo Nesbø se destaca por sua capacidade de fundir um enredo de thriller policial extremamente bem construído com um estudo de personagem profundo e sombrio. Enquanto outros autores focam no quebra-cabeça (Christie), na conspiração política (Larsson) ou na ação histórica (Follett), Nesbø nos arrasta para a mente de seu detetive e de seus monstros, mostrando que a batalha mais aterrorizante é muitas vezes a que acontece internamente.

Perguntas para reflexão crítica:

  1. Por que você acha que o arquétipo do “detetive falho e atormentado”, como Harry Hole, se tornou tão popular na ficção policial moderna?
  2. A violência gráfica nos livros de Nesbø serve a um propósito narrativo importante (mostrar a realidade crua do crime) ou você acredita que, em alguns momentos, ela pode ser excessiva?
  3. Qual dos estilos comparados mais lhe agrada como leitor: o quebra-cabeça intelectual de Christie, a crítica sistêmica de Larsson, a tensão histórica de Follett, o suspense doméstico de Flynn ou o mergulho psicológico de Nesbø? Por quê?
  4. Como a ambientação em Oslo e o clima frio da Noruega contribuem para a atmosfera dos livros de Jo Nesbø, em comparação com, por exemplo, os cenários mais variados de Ken Follett?

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