Famosos que lêem: quem leva a sério o incentivo à leitura e quem só quer aparecer?

Quando uma celebridade abre um livro e posa para uma foto, muita gente comemora como se fosse um avanço para a cultura. E em certa medida é mesmo. Mas por trás desse gesto aparentemente simples existe um espectro que vai do engajamento genuíno à oportunidade pura. Em um país onde mais da metade da população não lê livros, segundo a pesquisa Retratos da Leitura 2024, toda ajuda é bem-vinda. Mas pesquisa mais recente mostra a virada desta realidade mostra um boom de novos leitores. (Tomara!) Porém, para mim, além da questão “como distinguir quem realmente quer formar leitores de quem quer apenas turbinar a própria imagem”, isso tem um resultado positivo: o incentivo à leitura.

Então, vamos polemizar, mas também comemorar. Pois a resposta sobre a autenticidade de celebridades leitoras está na sua trajetória, na consistência e no tipo de curadoria que cada um oferece. E, para ajudar nessa reflexão, vale a pena olhar para exemplos dentro e fora do Brasil que iluminam essa fronteira.

Colagem de imagens com fotos de celebridades brasileiras e estrangeiras que promovem a leitura
Montagem com fotos de redes sociais e sites de famosos que promovem a leitura

A rainha incontestável: Oprah Winfrey e a invenção do clube do livro como fenômeno de massa

Nenhuma discussão sobre celebridades e leitura começa sem mencionar Oprah Winfrey. Quando ela lançou seu clube do livro em 1996, dentro do The Oprah Winfrey Show, ninguém imaginava que uma atração televisiva poderia transformar o mercado editorial daquela forma. Cada título escolhido por Oprah disparava para o topo das listas de mais vendidos, num fenômeno que ficou conhecido como “Oprah Effect”. Estima-se que ela tenha impulsionado a venda de mais de 60 milhões de livros ao longo de três décadas.

O que torna Oprah autêntica não é apenas o poder de influência, mas a relação visceral que ela estabelece com a leitura. Ela não indica livros aleatoriamente. Cada escolha passa por uma imersão pessoal, e ela diz abertamente que os livros a transformaram. Em 2026, seu clube completou 30 anos e se expandiu para um podcast que mantém o mesmo nível de profundidade. Oprah não precisa de livros para aparecer, mas usa sua visibilidade para levar livros adiante. Essa é a marca da autenticidade.

Reese Witherspoon e a curadoria com propósito

Reese Witherspoon seguia uma linha parecida quando criou o Hello Sunshine Book Club em 2017. Mais do que um clube de leitura, Reese construiu um ecossistema. Sua empresa de mídia, Hello Sunshine, nasceu com a missão de colocar mulheres no centro das histórias, e o clube do livro é a ponta de lança desse projeto. Ela escolhe autoras e protagonistas femininas, muitas vezes transformando os livros em séries e filmes, como aconteceu com “Pequenos Grandes Amores” e “Por Lugares Incríveis”.

O que diferencia Reese é que sua curadoria é coerente com sua atuação profissional. Ela não apenas recomenda livros: ela os produz, os adapta e os leva para novas plataformas. É um projeto integrado que beneficia autoras, leitoras e a sua própria marca de forma ética. A pergunta que se faz é se existe espaço para esse tipo de curadoria no Brasil com o mesmo nível de profundidade.

E em 2025 ainda lançou livro, Sem Chance de Dizer Adeus, coautora de um dos mais bem vistos nomes do suspense, Harlan Coben, que emplaca uma adaptação atrás da outra na Netflix.

Antônio Fagundes e a tradição que virou podcast

No Brasil, um dos exemplos mais sólidos de incentivo genuíno à leitura vem de Antônio Fagundes. Em 2019, o ator lançou o podcast “Clube do Livro por Fagundes”, onde não apenas indica obras, mas as discute com profundidade. Em suas próprias palavras, ele foi “criado em uma prática de leitura que as pessoas não têm mais”, e enxerga no formato digital uma forma de resgatar esse hábito.

O que torna Fagundes autêntico é a ausência de intermediários. Ele não está vendendo um produto, uma editora ou uma linha de merchandising. Está simplesmente compartilhando o que lê e o que aquelas leituras significam para ele. É a figura do avó que recomenda um livro, só que com alcance nacional. Não há pressa, não há hype. Há apenas a convicção de quem acredita que a leitura forma caráter. E ele até já lançou livro.

Fátima Bernardes e a comunicadora que lê

Fátima Bernardes não tem seu próprio clube do livro fixo ou que leve o seu nome. Ela atua como uma grande influenciadora literária, fazendo indicações de leituras em suas redes sociais. Recentemente, ela esteve em um retiro literário e voltou encantada, até propondo lançar a ideia. Mas já temos alguns por aqui e a ideia também vem ganhando corpo. Meu sonho de consumo é a do Silent Book Club e temos artigo aqui falando do tema.

A abordagem de Fátima como leitora “famosa” é mais próxima do público feminino e da literatura contemporânea, com escolhas que dialogam com temas como desenvolvimento pessoal e protagonismo feminino. O que diferencia Fátima é sua habilidade de comunicação. Ela consegue transformar uma indicação literária em uma conversa acessível, reencontrando um público que talvez nunca entrasse numa livraria por conta própria. Sua atuação é menos curadora e mais facilitadora, e isso também tem valor. Ela já virou nome de biblioteca.

A nova geração: booktokers e a autenticidade em 15 segundos

O fenômeno BookTok no Brasil mudou o jogo. Em 2026, um estudo sobre o impacto do TikTok na leitura brasileira mostrou que a plataforma e seus influenciadores estão levando jovens às livrarias como nunca antes. A Bienal do Livro de 2025 já havia sentido esse efeito, com booktokers sendo tratados como estrelas e filas enormes para sessões de autógrafos.

Mas é aqui que a linha entre autenticidade e oportunismo fica mais tênue. Muitos booktokers são leitores genuínos que simplesmente encontraram uma comunidade para compartilhar sua paixão. Outros, porém, tratam o livro como mero cenário para views, indicando títulos pelo potencial estético da capa ou pela viralidade do momento, e não pelo conteúdo.

A diferença está na continuidade. Um booktoker autêntico mantém uma linha de curadoria ao longo do tempo, erra, acerta e constrói repertório. O oportunista pula de tendência em tendência, e o livro é apenas mais um objeto descartável no feed.

Conclusão: o que separa o leitor de verdade do oportunista de plantão

A celebridade que lê de verdade não precisa provar que lê. Ela simplesmente fala sobre livros com a naturalidade de quem incorporou a leitura à vida. Oprah, Reese, Fagundes e tantos outros nomes que constroem trajetórias consistentes em torno da literatura mostram que o segredo não está no tamanho da plataforma, mas na profundidade da relação com os livros.

No Brasil, onde metade da população não tem o hábito da leitura, qualquer movimento que aproxime as pessoas dos livros é bem-vindo. Mas cabe a nós, leitores e consumidores de conteúdo, fazer a distinção entre quem está construindo uma ponte e quem está apenas posando na ponte para uma selfie. O tempo, como sempre, é o melhor crítico. E a consistência, o melhor atestado de autenticidade.

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