A biblioteca que Dua Lipa montou dentro da Livraria Lello: 100 livros que o poder tentou calar

Se alguém ainda duvida que celebridades e literatura caminham lado a lado, a notícia de hoje é um tapa elegante na cara dessa desconfiança. Dua Lipa, a mesma dos hits que embalam playlists do mundo inteiro, acaba de inaugurar um espaço que é puro veneno de estante: a Manifesto Library, o primeiro endereço físico permanente do Service95 Book Club. E não podia ter escolhido cenário mais literário para isso.

Desde a pandemia da Covid-19, instagramáveis e famosos ganharam notoriedade ao se aproximarem mais da literatura, especialmente os gringos como Reese Witherspoon, agora também coautora. A mais antiga e famosa foi Oprah, cujo famoso clube do livro com indicações que explodiam vendas. Agora, este nosso mundo de papel ganha a adesão de Dua Lipa – já reconhecida booklover – que deu seu golpe de mestre no momento em que muitos só reclamam da censura (tão antiga quanto os próprios livros).

Dua Lipa cria biblioteca de livros censurados
Foto divulgação de Dua Lipa sobre reprodução/Manifesto Library

Um santuário literário no coração do Porto

O palco é a Livraria Lello, no Porto, um daqueles lugares que parecem ter sido desenhados por um deus que ama livros mais do que pessoas. Escadaria emblemática, vitrais art nouveau, aquele cheiro de papel que faz qualquer bibliófilo suspirar. Foi dentro desse templo que a cantora resolveu fincar a bandeira da liberdade de expressão.

A Manifesto Library não é uma estante comum. É um santuário para obras que desafiam o poder, um espaço pensado como resistência física num mundo onde certos livros ainda são queimados em fogueiras simbólicas e e às vezes literais.

O clube do livro que virou movimento

Antes de ocupar as prateleiras da Lello, o Service95 Book Club já era um fenômeno digital. Criado por Dua Lipa em 2022, o clube nasceu dentro da sua newsletter Service95 com a proposta de conectar leitores ao redor do mundo através de leituras que provocam, questionam e expandem horizontes. A cada mês, uma obra diferente é selecionada e discutida por uma comunidade que hoje soma milhares de participantes espalhados por vários países.

A Manifesto Library é a materialização desse movimento. O que antes acontecia em grupos de WhatsApp, newsletters e eventos pontuais ganhou um endereço de verdade – e que endereço. Mais do que uma curadoria de livros, o clube sempre teve uma veia ativista: as escolhas mensais privilegiam autores marginalizados, histórias silenciadas e narrativas que desafiam o status quo. A biblioteca no Porto é a consagração física desse espírito.

Cem vozes que se recusam a silenciar

O conceito é tão bonito quanto necessário. A biblioteca reúne 100 livros contemporâneos que já foram censurados, proibidos ou alvo de tentativas de banimento ao redor do planeta. Cada volume ali carrega não só uma história dentro das páginas, mas uma história de resistência fora delas.

Entre os nomes que ocupam as prateleiras estão gigantes como Margaret Atwood, George Orwell, Salman Rushdie e a polonesa Olga Tokarczuk. Escritores que, em diferentes épocas e por diferentes motivos, enfrentaram o poder estabelecido e tiveram suas obras silenciadas, sem sucesso.

Manifesto Library em Portugal, instalada na Livraria Lello
Imagem: Reprodução/Livraria Lello

Quatro chaves para entender o acervo

A curadoria não é aleatória. O acervo está organizado em quatro eixos temáticos que soam como capítulos de uma distopia: Poder, Controle, Voz e Memória. Quatro palavras que, sozinhas, contam a história de como a humanidade tenta (e falha) em silenciar quem incomoda.

Cada categoria funciona como uma lente para enxergar a censura sob diferentes ângulos: quem exerce o poder, como o controle se manifesta, quais vozes são caladas e o que a memória insiste em preservar.

Um orgulho brasileiro nas estantes

E tem um sabor especial para o leitor brasileiro. Para inaugurar as estantes, Dua Lipa escolheu a obra Olhos d’Água, da escritora brasileira Conceição Evaristo. Uma escolha que diz muito: Conceição é daquelas autoras que escreve com o corpo inteiro, que transforma a vivência da população negra e periférica em literatura de altíssimo calibre. Ter um livro dela como peça de abertura da biblioteca é um aceno bonito para a força da nossa literatura.

Leia resumo do livro aqui no blog.

Resumo do Livro Olhos D´Água de Conceição Evaristo

Como visitar a Manifesto Library

Quer conhecer de perto? Dá para comprar ingresso na Plataforma de Ingressos da Livraria Lello. O bilhete sai a partir de 15,95 euros e funciona integralmente como voucher: você desconta esse valor na compra de livros da própria editora da instituição. Ou seja, além de visitar um espaço que é um verdadeiro santuário literário, você ainda sai de lá com um livro novo na mochila. Não tem programa mais literário que isso.

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